Na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, uma mulher comprometeu o patrimônio de uma vida. Sua história expõe como as bets podem transformar entretenimento em um problema financeiro, familiar e de saúde. Durante a Copa, Jordana começou a acompanhar os jogos pela perspectiva das apostas on-line. Na faixa dos 70 anos, ela possuía cerca de R$ 500 mil provenientes da venda de um imóvel — sua segurança financeira para o futuro. Em pouco tempo, todo o dinheiro foi perdido.
Mas a perda não encerrou o ciclo. Jordana penhorou joias e contratou empréstimos, inclusive linhas destinadas a aposentados. Queria apostar novamente para recuperar o prejuízo. Ao final, o impacto financeiro superou R$ 1 milhão. A história de Jordana — nome fictício — revela o loss chasing, ou perseguição das perdas: quanto maior o prejuízo, maior a urgência de continuar apostando para “voltar ao zero”.
As finanças
comportamentais ajudam a compreender a armadilha. A teoria do prospecto, de
Daniel Kahneman e Amos Tversky, demonstra que as pessoas tendem a aceitar
riscos maiores quando se percebem no campo das perdas. Soma-se o custo
afundado: abandonar a aposta pode significar admitir que o dinheiro
desapareceu. Persistir mantém viva, ainda que de forma ilusória, a
possibilidade de recuperação.
A neurociência mostra
que o problema é mais complexo do que dizer que “a dopamina causa o vício”.
Esse neurotransmissor participa da aprendizagem, da motivação e da expectativa
de recompensa. Em ambientes incertos, pequenas vitórias, bônus e resultados que
parecem ter chegado “perto” reforçam a repetição. As plataformas ampliam o
risco ao oferecer acesso permanente e quase nenhum tempo para reflexão.
O caso não é isolado. Em 2025, primeiro ano completo do mercado regulado, aproximadamente 25,2 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma aposta em plataformas autorizadas. No mesmo período, as bets registraram R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos — valor correspondente à diferença entre o total apostado e os prêmios pagos aos jogadores. Em outras palavras, foram quase R$ 37 bilhões efetivamente retirados do orçamento dos apostadores e retidos pelas operadoras antes de impostos e despesas. Por isso, atribuir situações assim apenas à falta de educação financeira é insuficiente. Conhecer juros e orçamento não imuniza ninguém contra decisões tomadas sob estresse, vergonha e impulsividade.
A resposta precisa ocorrer em duas frentes. Na financeira, é necessário interromper novas apostas, restringir crédito, preservar as despesas essenciais, mapear dívidas e renegociá-las. Na clínica, perda de controle, perseguição dos prejuízos e continuidade apesar das consequências exigem avaliação especializada em saúde mental. Consultoria financeira não substitui psicólogo ou psiquiatra. Da mesma forma, o cuidado clínico não reorganiza sozinho dívidas, garantias e fluxo de caixa. A recuperação responsável é interdisciplinar.
O primeiro passo não
é encontrar uma aposta capaz de devolver o dinheiro perdido. É interromper a
lógica que transforma cada perda no argumento para apostar novamente.
Maico Sullivan é sócio-diretor da Henkō Soluções Corporativas e coordenador do Núcleo de Investimentos e Mercado de Capitais da Acic
Fontes de referência:
Kahneman e Tversky —
Teoria do Prospecto;
Clark et al. — efeito near miss;
Banco Central — mercado de apostas on-line;