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Artigo: O inglês não é mais dos ingleses

Toda escola de idiomas conhece a pergunta. Uma hora ou outra um aluno pergunta, meio sem graça, como faz pra perder o sotaque. Por muito tempo a gente achou que era uma meta boa. Soar como nativo, esconder o português na fala, chegar perto de um locutor da BBC. Só que o mundo mudou enquanto a gente ensinava.

A maior parte das conversas em inglês no planeta hoje acontece sem nenhum americano ou inglês na sala. É um alemão fechando negócio com um coreano, um indiano num congresso em Dubai, um brasileiro numa videochamada com um italiano. O inglês passou a pertencer mais a quem aprendeu a falar do que a quem nasceu falando. E nós somos a maioria.

Isso devia mudar a forma como a gente ensina. Se o ponto é se entender com gente do mundo todo, pouco importa o quanto você soa americano. O que pega é se a pessoa do outro lado entendeu. Dá pra ter pronúncia perfeita e travar numa reunião porque não sabe conduzir a conversa. E dá pra ter um sotaque carregado e ser a pessoa mais clara da mesa.

Tem uma ironia boa nisso. Às vezes quem comunica pior num ambiente internacional é o próprio nativo, que solta gíria e fala rápido demais. Duas pessoas que aprenderam inglês na escola costumam se entender melhor entre si do que com um londrino.

Pronúncia ainda importa, claro. Mas importa quando atrapalha o entendimento. Trocar um som e mudar o sentido da palavra é problema. Não soar como gente de Londres não é. A régua deixou de ser parecer nativo e virou ser claro. Isso tira um peso das costas do aluno e deixa ele mirar mais alto ao mesmo tempo.

Pra quem ensina isso é meio desconfortável, admito. Boa parte do que se vende ainda é a promessa de falar igualzinho a um nativo, como se o aluno fosse uma cópia mal feita de um americano. Talvez dê pra parar de medir o quanto falta pra ele soar gringo e começar a olhar o quanto ele já resolve no mundo real com o inglês que tem.

O aluno que me perguntou como perder o sotaque queria outra coisa no fundo. Queria confiança pra entrar numa sala e ser levado a sério. E isso nunca dependeu de soar como a Rainha. Depende de ter o que dizer e conseguir dizer.

O inglês já não é mais deles faz tempo. Falta a gente contar isso pros nossos alunos.

Legenda: O diretor da Minds em Cascavel, Nathan Souza

Crédito: Assessoria

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